O meu nome é Adélia Valério, nasci há 67 anos no Bairro da Salúquia em Moura e desde que me reformei, aos 55 anos, com uma dor nas costas que me dedico à coscuvilhice a tempo inteiro. Mas a coscuvilhice já não é o que era! Antigamente a gente punha-se à esquina e controlávamos o bairro de alto a baixo, desde lá de baixo da ponte até cá acima à taberna do Caetano. Mas os tempos mudaram. Há uns três, quatro anos, para sobreviver, fui obrigada a pedir ao meu neto para me abrir uma conta no Facebook! Ao princípio foi um choque cultural muito grande! É um autêntico choque civilizacional! Levei meses para fazer o luto desta perda, a minha vida estava ali, naquele canto da rua! Mas olhem, com o tempo fui-me habituando, os netos das minhas amigas do canto também lhes abriram contas no Facebook e agora passamos os dias ligadas umas às outras, sentadas no sofá de casa com as pernas esticadas por causa da má circulação. Ainda no outro dia estava vendo o programa da Cristina na SIC e comendo bolachas Maria com marmelada enquanto fazia likes nas fotografias do novo casamento da vaca da minha ex-nora! É bom que saiba que eu sei que voltou a casar! E por sinal com um noivo mais feio que o meu filho. E quando eu e as minhas vizinhas abrimos um chat em grupo? Ai mãe, ninguém nos escapa! Mas eu confesso, isto do Facebook é melhor que a esquina! É pena é que aqui tenho que pagar internet e na esquina era de borla! Mas o meu neto disse-me que um dia com tempo vem cá e rouba a senha da rede da vizinha. Apesar disso isto aqui leva-nos mais longe: já vemos as vidas para além do nosso bairro! Já temos gente do bairro do Sete e Meio, da Porta Nova, do bairro do Pijama e até tenho algumas pessoas das Pias e do norte do país. Isto é um mundo dentro do mundo! E é muito reconfortante quando as pessoas comentam as minhas fotos dizendo que estou linda com um sincero “tás linda miga”. Viva as tecnologias!
Crónicas de Ivan Valério: A coscuvilheira moderna
